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Nome:Paula Ramos
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um bom filme;;Shopping;;etc...
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Bruno Tenreiro


 

 

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma.Mas não devia...

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e

a não ter outra vista que não as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.

E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.

E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.

E porque à medida que se acostuma, esquece o sol,

esquece o ar, esquece a amplidão.A gente se acostuma a acordar de manhã,

sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado.

A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.

A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado.

A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra.

E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos.

E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz.

E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.

A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.

A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita.

E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga.

E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais.

E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios.

A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade.

A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor.

Ao choque que os olhos levam na luz natural.

Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar.

À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos,

a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber,

vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio,

a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada,

a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.

E se no fim de semana não há muito o que fazer,

a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos,

para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Marina Colasanti

  Paula Ramos



Postado por: ::..Paula..:: às 19h41
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